1. A Estética: evolução histórica da luz na composição da imagem


1.3 - O Cinema

 

"O que marca o século que inventaria o cinema é ter convertido a luz e o ar em temas pictóricos."

 

As primeiras experiências de animação ocorreram em 1659 com a chamada "lanterna mágica" de Christian Huygens. A lanterna mágica é considerada como precursora do cinema.

A primeira exibição de cinema foi em 1896 na feira russa de Nizh.Novorod, à partir da idéia de exibição de fotografias seqüenciais desenvolvida pelos franceses Irmãos Lumière.

Nesta primeira apresentação despertou certas preocupações ao público da época pois se apresentavam como sombras projetadas. A respeito das "fotografias animadas" Máximo Gorky inquietou-se pois as imagens mudas, em preto e branco exibidas retratavam cenas familiares e imagens de trabalhadores do submundo parisiense.

 

"É aterrorizante ver esse movimento cinza de sombras cinzentas, mudas e silenciosas. Será que isto não é já uma sugestão da vida no futuro? Diga o que quiser, mas isso é irritante."

 

Tecnicamente o cinema realmente partiu do princípio das fotografias animadas. Os estudos dos irmão Lumière mostraram que a visão humana tem uma caraterística fundamental para viabilizar a impressão do movimento: a "persistência da visão". A retina, superfície interna do globo ocular que tem a função de transformar a luz projetada em sua superfície em impulsos elétricos que são levados ao cérebro pelo nervo óptico, demora um determinado tempo para regeneração. Com a exibição seqüencial de 48 fotografias por segundo o tempo de mudança de quadro é mais rápido que o tempo de regeneração da visão. Com a apresentação sucessiva de fotos, a seqüência é entendida, para o olho humano, como contínua, dando a impressão do movimento. Mais detalhes sobre a formação da imagem no olho humano está descrita no capítulo "2.0 - A luz e a formação da imagem na TV" especificamente no seguimento "2.1 - A contribuição do olho humano".

No entanto, para "enganar" o olho não seriam necessários 48 fotos diferentes. Por questão até de economia de filme, bastaria apresentar o mesmo fotograma duas vezes seguidas pois o olho continuaria com a impressão de movimento. Portanto o cinema, como o conhecemos hoje, utiliza 24 exposições de fotos paradas por segundo de movimento, sendo que cada fotograma é projetado duas vezes graças ao mecanismo chamado obturador.

O projetor é constituído pela fonte luminosa, obturador, sistema de grifo e lentes.

Nos projetores mais antigos a luz era fornecida por dois bastões de carvão que recebiam uma energia elétrica. Ao se tocarem provocavam um curto-circuito elétrico gerando uma energia luminosa intensa o suficiente para passar através da película e projetar as sombras registradas em um anteparo branco. A cada rolo de filme o conjunto de carvão era substituído e durante a projeção o operador precisava reajustá-los pois, à medida que queimavam, a intensidade luminosa diminuía gradativamente deixando as cenas projetadas mais escuras. Os projetores modernos não se utilizam mais de carvão pois estes foram substituídos pelas lâmpadas de xenon, que fornecem energia luminosa mais intensa, mais constante e mais barata. A energia luminosa é reforçada com uma lente que concentra os feixes de raios luminosos permitindo maior intensidade de luz.

O obturador é um engenhoso disco circular com aberturas dispostas de forma adequada para que, ao girar, permita ou bloqueie seqüencialmente a passagem da luz.

O sistema de grifo é um eficiente mecanismo que puxa o filme pelas perfurações laterais fazendo com que o fotograma fique parado frente à janela por onde a luz é projetada. Quando o fotograma está parado, de forma sincronizada, o obturador permite a passagem da luz. Como o obturador está girando, no momento seguinte a luz é bloqueada. Neste momento, sem luz projetada, o grifo puxa o próximo fotograma e o deixa parado. Sincronizadamente o obturador, sempre girando, permite novamente a passagem da luz. Novamente o obturador faz o bloqueio luminoso e o grifo puxa para o próximo fotograma. Neste movimento repetitivo numa freqüência de 24 vezes por segundo, as sombras são projetadas sem nosso olho perceber o momento em que a tela fica sem luz graças à persistência da visão.

O sistema de lentes tem a função de focalizar as sombras no anteparo branco.

A câmera de cinema funciona segundo o mesmo processo porém a fonte luminosa é a própria cena enquadrada e o anteparo é a película plástica contínua, banhada com os componentes químicos sensíveis à luz com perfurações nas bordas para a atuação do grifo.

A bitola da película foi definida na época para ter o fotograma, área a ser impressa a luz, nas medidas de 16 milímetros de largura por 9 milímetros de altura em uma proporção de 4 para a largura e 3 para a altura.

Posteriormente as películas passaram a utilizar elementos quimicamente sensíveis à luz em três gradações de cor: azul, vermelho e verde, que são as cores básicas para a luz. Surgiu então o cinema que podia registrar não apenas as luzes, sombras e suas nuances na escala de cinza, mas também as misturas do espectro visível que permitem a interpretação da cor.

 

"A maior dívida que o cinema tem com a fotografia deve ser creditada a uma prática bastante específica que apareceu somente a década de 1870, a fotografia instantânea."

 

A fotografia, para ser realizada, necessitava de um tempo de exposição de até uma hora, para que o filme fosse sensibilizado pela luz. Este tempo de exposição foi diminuindo para alguns segundos de exposição por volta de 1860 e finalmente na década de 1870 conseguiu-se que em apenas 1/60 de segundo de exposição, a luz ficasse registrada na camada sensível do filme. Era o surgimento da fotografia instantânea, o que viabilizou a invenção do cinema.

 

"Com o domínio do instante, a fotografia deixou a visão humana para trás e abriu todo um mundo do qual o olho nu tinha sido excluído."

 

Até então, as fotografias registravam sempre cenas sem ação, sem representatividade de movimento. Agora, com o instantâneo, cenas como os saltos de cavalos ou o vôo dos pássaros passaram a representar, em uma foto, a sensação do movimento. A partir do instantâneo foi possível ao olho humano ver momentos que antes passavam despercebidos, pois o registro de uma troca de patas do cavalo correndo, por exemplo, era percebido apenas no todo, ao olho nu.

 

"Curiosamente, quando o cinema começou a definir sua própria identidade estética nos anos vinte e trinta, a extrema variedade de suas origens foi muitas vezes reduzida à diferenciação face ao teatro."

 

No início do cinema a produção cinematográfica baseava-se, além do cotidiano familiar, em entretenimento com cenas engraçadas ou fantasmagóricas.

Com o domínio da técnica cinematográfica iniciou-se a produção de entretenimento com enredo. O teatro foi grande colaborador. As representações teatrais possibilitaram a utilização da técnica fílmica para reapresentação para grandes públicos. Surgiram os famosos trabalhos de Charles Chaplin e outros pioneiros do cinema clássico.

A técnica de iluminação desta época vinha da utilizada na fotografia. Como as câmeras eram grandes e de difícil locomoção, as cenas eram representadas e filmadas em estúdios montados ao ar livre. As falsas paredes do cenário eram montadas e decoradas para dar realidade do ambiente e a iluminação era a própria luz solar. Porém não direta e sim difusa. Sobre as paredes cenográficas eram colocados grandes panos brancos. Os raios do sol iluminava o pano por cima e a luz era então espalhada por igual sobre todos os elementos da cena. Como a película tinha ainda pouca sensibilidade de registro a maquiagem forte e marcada do teatro foi utilizada para demarcar os contornos dos olhos, nariz e boca. A iluminação artificial foi sendo aplicada lenta e gradativamente.

 

Fig. 20: Set de gravação de Charles Chaplin

 

"Dentro de um certo recorte, é a inscrição de uma peça ou de um filme em determinado movimento estético que constitui o fator mais relevante da análise, para além das diferenças de suporte técnico. Um cinema expressionista exibe critérios de composição que o teatro e a pintura expressionista ensinam."

 

Com meios técnicos diferentes do teatro, o cinema permitia closes ou recortes em uma cena para determinar o centro de interesse. Novamente encontramos a influência das técnicas de composição artística.

O avanço tecnológico viabilizando a fabricação de películas mais sensíveis à luz e a fabricação de iluminadores artificiais, os refletores, permitiu que não só a composição de imagem fosse reutilizada no cinema mas também a criação de centros de interesse com base na luz e contraste.

 

Exemplificamos com uma cena do clássico "E o Vento Levou..." que a luz aplicada na personagem Scarlat O’Hara na triste cena onde percebe que seu pai estava louco é exatamente a mesma da pintura "A mãe de Rembrandt".

A composição de "A Mãe de Rembrandt" sugere uma emoção que se encaixa no desenrolar da cena com Scarlat O’Hara.

 

Fig. 20: Comparação entre "A mãe de Rembrandt" e o filme "E o vento levou..."

 

Alfred Hitchcok introduz o conceito da câmera subjetiva na década de cinqüenta, gerando a sensação que o espectador está dentro da cena. A iluminação de seus filmes sugere sempre o suspense, o pensar do que está por vir. Aparenta ter sido baseada na iluminação utilizada por Goya em "Os fuzilamentos do Três de Maio de 1808" gerando uma sensação de terror.

O filme "A Noviça Rebelde" apresenta composição de imagens paisagísticas que remetem às pinturas impressionistas e realistas.

 

Fig. 22: Comparação entre o quadro impressionista "O Barco a Remo" de Renoir
com uma cena do filme "A Noviça Rebelde"

 

Fig. 23: Cenas impressionistas do filme "Em Algum lugar do passado"

 

O mesmo observamos com algumas cenas do filme "Em Algum Lugar do Passado" cuja fotografia é muito parecida com as pinturas impressionistas.

A produção cinematográfica vem se tornando sofisticada à medida que os avanços tecnológicos permitem efeitos especiais nunca antes imaginados.

Donis A. Dondis, em sua obra "Sintaxe da Linguagem Visual" registra que "a fotografia é a expressão da realidade". Atualmente esta afirmação não tem mais validade pois os efeitos viabilizados pelos computadores cada vez mais velozes com softwares cada vez mais sofisticados e amigáveis permitem a manipulação digital da imagem que impossibilita determinar o que é real e o que é imaginário.

Resultados cênicos como do filme "Segredo do Abismo" lembram as pinturas surrealistas de Salvador Dali. E o mesmo tema surrealista também está presente na televisão, na abertura da novela "A Indomada" da Rede Globo:

 

Fig. 24: Quadro "Atomicus" de Dali Fig. 25: Cena de "Segredo do Abismo"

 

Fig. 26: Cena de "Segredo do Abismo" Fig. 27: Cena de "Segredo do Abismo"

 

Fig. 28: Cena da novela "A Indomada" Fig. 29: Cena da novela "A Indomada"

 

Exemplos como estes demonstram que os elementos da composição da imagem migraram da pintura para a fotografia, cinema e depois televisão e mesmo que a relação seja inconsciente é possível afirmar a passagem da técnica através dos diferentes meios de reprodução das imagens.


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índice

Introdução

Dedicatória

Agradecimentos

A influência das artes plásticas

Os elementos da composição artística

A luz nos movimentos artísticos

A Fotografia

O Cinema

A luz na TV hoje

A contribuição do olho humano

A formação da imagem na televisão

A imagem colorida na televisão

A temperatura de cor

Os filtros de correção

O processo de balanceamento de cor

Tipologias da fonte de luz

A comunicação na TV

Em estúdios de telejornalismo

Iluminação de três pontos

Iluminação para dois ou mais apresentadores

Nas cenas de telenovela

O roteiro: o produto

As cenas: a análise

Conclusão

Bibliografia

Videografia

Resumo

Abstract

dúvidas, críticas e sugestões
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