3 - A estética e a técnica na ambientação
Neste capítulo pretendemos unir as informações técnicas e estéticas apresentadas no dois primeiros capítulos, para uma análise do efetivo uso da iluminação na produção de cenas em programas de televisão.
3.1 - A comunicação na TV
A televisão permanece, meio século depois de seu aparecimento, como um objeto não pensado. Ou talvez um objeto pensado, mas em vão. Persistem os mesmos discursos, apesar de um número considerável de trabalho empíricos realizados nos Estados Unidos e na Europa: eles, não conseguiram pôr abaixo a muralha de estereótipos, de idéias prévias e meias verdades. Mesmo assim, sabemos pouco mais sobre o papel da televisão, sua inserção na diferentes culturas, seus modos de funcionamento, suas relações com o poder político, sua programação, sua audiência, o status dos seus jornalistas, sua influência ... Ora, esses trabalhos jamais tiveram ressonância comparável àqueles que tratam de outros domínios como a economia, a política, a saúde, a educação ...
Por quê? Simplesmente porque a televisão, por seu próprio status, suscita fantasmas de poder relacionados com o fato de que as mesmas imagens são recebidas por todo mundo. A complexidade da televisão, inerente a seus status de meio de massa, foi reforçada por seu imenso sucesso popular, o que acentuou os temores existentes em torno dela e que os trabalhos empíricos não conseguiram abordar. Aos fantasmas veiculados pelo discurso comum e à desconfiança dos políticos, acrescentou-se o discurso bastante crítico dos intelectuais. Estes viram na televisão um instrumento de padronização e de homogeneização culturais, de isolamento dos cidadãos num consumo solitário e passivo e o triunfo das industrias culturais.
A televisão viu-se então imobilizada, no curso de sua breve história, entre um sucesso incontestável e uma reticência, para fazer no mínimo, das elites políticas encarregadas de definir o seu modo de funcionamento e os intelectuais encarregados de analisar o impacto desse instrumento incômodo na cultura de massa.
Assim, a televisão é concebida como um conjunto de canais que divulga, a maior parte do tempo, mensagens sem interesse, ou seja alienantes e reprodutoras da ideologia dominante. Mas pode se tornar um "instrumento bom" de difundir "mensagens boas"(). Quanto ao cidadão-espectador, este é meio anjo, meio demônio: velha problemática sobre a qual aqueles que a professam nem sempre trazem na lembrança os seus fundamentos teológicos.
O sucesso incontestável da televisão neste período, exige uma reflexão sobre as razões para tanto entusiasmo. Ela é, ao mesmo tempo, uma formidável abertura para o mundo, o principal instrumento e, provavelmente, o mais igualitário e o mais democrático. Ela é também um instrumento de libertação, pois cada um se serve dela como quer, sem ter de prestar contas e ninguém: essa participação à distância, livre e sem restrições, reforça o sentimento de igualdade que ela busca e ilustra o seu papel de laço social. Mas esse sucesso não nos diz se é possível escapar a crítica que parece envolver a televisão: sua divisão entre um sucesso formidável e uma não menos formidável resistência à análise.
Para compreender toda a complexidade desse meio de comunicação de massa, se faz necessário primeiro, analisar o seu processo de comunicação.
Os estudos em comunicação tiveram origem no trabalho de Shannon e Weaver com a obra Mathematical Theory of Communication (1949), onde a comunicação é vista como transmissão de mensagens. Os autores, então pesquisadores das Bell Telephone Laboratories, procuravam com esta obra a maneira mais eficiente para utilização dos canais de comunicação. Como o objetivo era descobrir como enviar o máximo de informações por um determinado canal, o cabo metálico, os estudos estavam voltados para a área de engenharia. No entanto a teoria apresentada pode ser aplicada ao estudo das comunicações humanas através de canais artificiais, por exemplo a televisão.
Fig. 41: Modelo de Shannon e Weaver
No modelo apresentado por Shannon e Weaver , a comunicação inicia-se na fonte de informação, é emitida por um transmissor através de algum tipo de sinal que pode receber alguma fonte de interferência, é recebida por um receptor e finalmente atinge seu destino.
FISKE destaca que neste mesmo modelo identificam-se três níveis de problemas: com que exatidão os símbolos da comunicação podem ser transmitidos?; com qual precisão os significados desejados são transmitidos pelos símbolos utilizados?; com qual nível de eficiência o significado recebido afeta ao receptor da mensagem?. Estes três níveis são colocados por FISKE como problemas técnicos; problemas semânticos e problemas de eficácia da comunicação. O terceiro nível é o mais preocupante uma vez que a fidelidade da compreensão da mensagem pode depender diretamente da cultura do receptor. FISKE apresenta ainda, no processo de comunicação, três elementos básicos: canal, meio e código.
Canal é definido como o recurso físico pelo qual se propaga o sinal onde destaca como principais as ondas sonoras, as ondas de luz, as ondas de rádio, os cabos telefônicos e o sistema nervoso.
O meio é determinado pela forma técnica pela qual a mensagem é convertida de tal forma a viabilizar a transmissão da mensagem por um canal determinado. Como meio define três subdivisões:
- os meios presenciais: como a voz, a expressão facial e corporal, assim enquadrados pois exigem a presença do comunicador e produzem atos de comunicação;
- os meios representativos: como livros, pinturas, fotografias, decorações, arquitetura e outros que se utilizam de convenções culturais e estéticas para transmitir alguma informação pois sendo representativos podem existir independente do comunicador e produzem obras de comunicação;
- os meios mecânicos como telefone, rádio, televisão e outros recursos técnicos resultantes de engenharias e que servem como suporte de transmissão para os meios anteriores.
Código é o sistema de signos comuns entre emissor e receptor, membros de uma mesma cultura. As regras ou convenções conhecidas pelas duas pontas da comunicação permitem a emissão de mensagens simples com significados mais complexos, mensagens estas que de acordo com o contexto de sua aplicação podem ter significados diferentes para culturas diferentes.
"Las características físicas de los canales determinan la naturaleza de los códigos que pueden transmitir."
Uma mesma mensagem pode ser codificada de formas diferentes de acordo com o canal e meio pelo qual será transportada para que se possa atingir um mesmo objetivo. A escolha do meio deve determinar os códigos que poderão ser utilizados pelo emissor na produção de uma determinada resposta de tal forma que o receptor possa interpretá-los com o mínimo de distorção semântica.
A interferência no canal ou no meio, definida por FISKE como qualquer distorção do significado que ocorre no processo de comunicação não intencional pela fonte, pode provocar alterações na mensagem original, proporcionando ao receptor interpretações diferentes da esperada pelo emissor.
"Toda comunicación involucra signos y códigos. Los signos son actos o artefactos que se refieren a algo diferente de ellos mismos, es decir, son conceptos significativos. Los códigos son los sistemas de organización de los signos que determinan cómo éstos pueden estar inter-relacionados."
Por esta razão a escolha do meio é fundamental para determinação dos códigos. O conhecimento das características inerentes ao meio designado permitem ao produtor da mensagem a utilização de códigos que sofram menores distorções com as interferências e levem o receptor a interpretações mais próximas do conteúdo original. Signos conhecidos pelo emissor e que estejam no repertório do receptor minimizam as distorções e permitem mensagens menos complexas para transmissão porém com maior complexidade de informações e que poderão ser interpretadas pelo receptor com o mínimo de distorção.
La relación entre medio y código no es tan clara. La televisión, por ejemplo, es un medio que usa canales visuales y auditivos. E.Buscombe (1975) afirmó que un programa como "El Partido del Dia" utiliza tanto códigos específicos del canal como códigos específicos del medio. Entre los primeros, menciona: en el canal visual la acción en vivo, las tomas de estudio y los gráficos; en el canal auditivo, los ruidos grabados, la palabra y la música. Analiza también los códigos específicos del medio utilizados por el canal visual: códigos de iluminación, velocidad, definición, encuadre, movimiento y ubicación de cámara, edición. Demuenstra así que mientras las exigencias técnicas del medio definen los posibles usos de cada código, su uso real está determinado por la cultura de los productores."
A televisão sendo um meio auditivo e visual permite o uso de códigos mais próximos da comunicação presencial: a voz, a expressão facial e corporal, os gestos, as pinturas, as fotografias, os ruídos característicos de determinadas ações, produzindo assim atos e obras de comunicação.
Por ser um canal e meio de comunicação unidirecional, a televisão não permite ao emissor, de imediato, o "feed-back" da interpretação da mensagem por parte do receptor. Logo, a melhor forma de evitar que a interferência provoque distorções semânticas é que o produtor conheça as características do meio e conheça o receptor, seu público alvo.
O pré-conhecimento do contexto ao qual está inserido o receptor, no caso da televisão o telespectador, tanto a nível cultural, social ou econômico permitem ao emissor, no caso da TV o produtor, elaborar roteiros cujos textos sejam objetivos, sem ambigüidade e as imagens proporcionem ao telespectador uma interrelação entre a mensagem recebida e seu repertório onde deve remeter o receptor aos dados registrados na sua memória visual, emocional e espacial. Um produtor de TV que consiga elaborar a mensagem nestes moldes conseguirá maior envolvimento do telespectador ao conteúdo transmitido, seja informativo ou de entretenimento.
A elaboração do roteiro com os códigos apropriados inclui tanto o texto quanto as imagens. O texto deve ser produzido em linguagem coloquial, que está mais próxima do linguajar cotidiano do receptor, logo permitirá maior identificação entre mensagem emitida e recebida, e as imagens devem oferecer composição visual dentro da existente no repertório do público alvo: o telespectador. A seqüência de imagens composta por elementos conhecidos permite referências e consequentemente ação na comunicação de forma a provocar as reações emocionais desejadas no receptor.
Dentro destas características descrevemos a seguir o processo de comunicação utilizado na elaboração de cenas e cenários para programas de televisão, objeto deste estudo.
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