1. A Estética: evolução histórica da luz na composição da imagem


1.6 - A luz na TV hoje

Cenas românticas, suspense, alegria, aventura, terror...

Segundo as pesquisas divulgadas pela revista Meio & Mensagem, o telespectador brasileiro fica em média quatro horas por dia frente à um receptor de TV. O tempo dedicado à televisão é muito maior que o tempo dedicado ao cinema.

Os avanços tecnológicos proporcionaram na última década grandes evoluções na estética televisual. Os recursos técnicos disponíveis há dez anos permitiam efeitos visuais revolucionários para a época em que surgiram porém desgastados para a época atual. Os efeitos eletrônicos como "wipe", "matte", "saturação" ou "sobreposição", eram utilizados pelo visual do efeito em si. Atualmente estes efeitos são utilizados como recursos de máscaras para outros efeitos especiais que visam criar uma ilusão ligada ao conteúdo da cena.

No entanto o efeito de mixagem, a gradual mistura onde uma nova imagem vai surgindo lentamente misturada à imagem anterior até que a imagem velha desapareça totalmente ficando apenas a nova, teve início no cinema e até hoje é o mais bem vindo dos efeitos. A mixagem, ou fusão, começou a ser aplicada no cinema em momentos que o roteiro pretendia demonstrar ao telespectador a mudança de tempo ou de espaço.

Este efeito especial, dos mais simples porém com maior utilização, migrou para a TV desde seu início, com a intencionalidade de gerar no telespectador a mesma sensação: mudança de tempo ou espaço.

Assim como a mixagem, outros elementos visuais passaram do cinema para a TV. Devemos sempre lembrar que este elementos vieram da pintura, passaram pela fotografia, foram introduzidos no cinema e agora estão na televisão.

Enquanto na pintura os artistas se utilizavam de velas para iluminar uma cena a ser pintada, a fotografia começou conhecer os efeitos da luz elétrica de Thomas Edson. Os estúdios de cinema começaram seus trabalhos com "sets" montados ao ar livre cobertos com panos brancos para espalhar a luz solar pelos personagens e cenários.

A luz espalhada desta forma é difusa, não definida. Com essa iluminação os "takes" ficam suaves sem sombras definidas. Este tipo de luz não corresponde com o dia a dia. Normalmente estamos acostumados a ver sombras geradas por fonte de luz dura, como o sol, que gera sombras bem definidas, bem demarcadas, onde a transição entre o claro e escuro é bem contrastada.

Sentiu-se então a necessidade de criar uma fonte de luz artificial para o estúdio que reproduzisse cenas mais próximas à da iluminação natural.

As melhorias desenvolvidas tecnologicamente para as películas permitiram melhor sensibilidade e melhor definição da imagem fílmica. Surgiram os primeiros refletores com luz artificial para reproduzir as sombras mais contrastadas como as proporcionadas pela luz do sol, mas dentro de um espaço fechado: o estúdio.

Os profissionais de cinema passaram a conhecer o uso da luz artificial em suas diversas tipologias desde o "follow-spot", com sua luz dura, gerando sombras bem definidas, até o "soft-light", que gera luz suave e com pouca sombra. As tipologias das diversas fontes de luz está apresentada no capítulo "2.7 - Tipologias da fonte de luz" ainda neste trabalho.

Com o domínio da técnica sendo aplicada em estúdios, o profissional aprendeu a utilizar-se da luz dura em conjunto com a luz suave de maneira adequada na tentativa de reproduzir o ambiente mais próximo do cidadão comum. Este processo se deu de forma experimental.

A luz deixou de ser um elemento utilizado para "clarear" passando a ser um elemento destinado a "iluminar". O resultado estético da iluminação visava aproximar a cena ao cotidiano visual na memória do espectador.

Instintivamente a composição das imagens em um "take" procurava sempre equilibrar os componentes de massa em conjunto com os componentes de linha, de contraste e de tom. Não havia regras mas normalmente as cenas eram arranjadas segundo os elementos da composição artística em seu processo evolutivo através dos diferentes movimentos artísticos envolvendo a pintura. Acredito que a utilização dos elementos da pintura se deu de forma natural devido à memória artística visual já presente nos diretores de fotografia e profissionais que fizeram o cinema.

A televisão surgiu no início do século e já foi concebida imitando o cinema. O fotograma da película era 16 milímetros proporcionando um aspecto de quatro por três (quatro na largura por três na altura). Ainda não havia o filme de trinta e cinco milímetros. A televisão copiou este aspecto 4 x 3. O cinema evoluiu para 35 mm com aspecto de 5 x 3 depois para o cinemascope com aspecto 9 x 5 e finalmente para o 70 mm com aspecto 12 x 5. A televisão ganhou cor, melhor definição, porém o aspecto continua em 4 x 3 e só vislumbra a mudança com a TV em alta definição (HDTV).

O cinema e a televisão tem processos diferentes para registro e exibição das imagens. O cinema registra as imagens através da luz que sensibiliza elementos químicos na película, elementos estes sensíveis à luz. A televisão registra as imagens através da luz que sensibiliza elementos químicos em uma superfície de vidro onde uma feixe de elétrons faz uma varredura eletrônica pixel a pixel, linha a linha, transformando a luz em sinal elétrico.

O cinema exibe o filme com luz projetada através da película fílmica cujas sombras são vistas em uma tela reproduzindo a cena. A televisão exibe as imagens por luz emitida no momento que um feixe de elétrons toca um elemento químico que brilha ao ser tocado por estes elétrons, pixel a pixel, linha a linha.

A animação no cinema se dá pela projeção sucessiva de 24 quadros (ou fotogramas) parados e seqüenciais por segundo. A animação na televisão se dá pela exibição de 30 quadros (ou frames) parados e seqüenciais por segundo. Mais informações sobre a formação da imagem na TV são apresentadas no capítulo 2, especificamente no seguimento "2.2 - A formação da imagem na TV".

No campo além tecnologia dos meios, a televisão recebeu muita influência do cinema. Apesar das "mídias" cinema e televisão serem diferentes e utilizarem processos técnicos diferentes para registro e exibição das imagens, as técnicas de enquadramento, composição da imagem e iluminação adotadas no cinema passaram a valer também para a televisão. Funcionavam para o cinema, logo valeriam também para a TV.

Mas o processo produtivo da TV é muito rápido. Devido ao grande número de horas diárias para preencher uma programação, a produção de programas tem ritmo muito acelerado. Os cuidados especiais que são tomados com o cinema durante a preparação de cenário, luz e ensaios de enquadramento foram, na televisão, deixados para segundo plano.

No cinema há a preocupação em se estudar as cenas durante o processo de confecção do roteiro através de "story-board" onde o diretor materializa através de desenhos os tipos de enquadramentos adequados ao conteúdo narrativo proporcionando melhor orientação aos operadores de câmera e de iluminação. A televisão exige montagens rápidas o que obriga a produção pular o processo: do roteiro diretamente à execução.

Por esta razão, desde o início, a iluminação em televisão sempre se preocupou em "clarear" e não em "iluminar" a cena.

Mais recentemente, em função da evolução estética televisual proporcionada pela valorização da fotografia do cinema em detrimento da fotografia em televisão, passou-se a aprimorar pelos resultados cênicos em TV.

Em cinema e televisão o termo "fotografia" ganha um novo significado: a harmonia estética entre o arranjo dos elementos que compõem a cena e a iluminação ambientada.

A entrada de profissionais do cinema na produção de tele-dramaturgias, como ocorreu com Tizuka Yamazaki na novela Pantanal exibida pela TV Manchete na década de oitenta, mostrou que a linguagem do cinema pode ser adaptada à televisão, dentro de certas proporções em função de serem meios diferentes, bem como o fato de, a fotografia não poder ser desprezada, sob o risco de a cena não "convencer" o telespectador por esta não corresponder às cenas do mesmo assunto que estão armazenadas na memória visual do cotidiano dele. Esta divergência entre a cena apresentada e o mesmo tema vivenciado pelo telespectador, na vida real, provoca nele a sensação que a trama é falsa, que alguma coisa não está certa. Maiores detalhes sobre este conceito serão apresentados no capítulo "3.3.1 - O roteiro: o produto".

Mais recentemente a televisão, em particular no Brasil a Rede Globo, passou a valorizar mais este lado estético. As mini-séries produzidas por esta rede de televisão tiveram preocupação não apenas com o roteiro, interpretação e caracterização de época e personagens, mas principalmente com a fotografia.

Com tempo maior para produção os profissionais puderam elaborar mais preciosamente a iluminação cena a cena, proporcionando maior realismo nas imagens. A seguir as novelas da mesma rede de televisão demonstraram cenas melhor elaboradas onde deixou-se de "clarear" para realmente "iluminar".

As mais recentes novelas como "A Próxima Vítima", "Explode Coração", "O Rei do Gado" e "A Indomada", produzidas pela Rede Globo de Televisão e "Pantanal", "Ana Raio e Zé Trovão", produzidas pela TV Manchete, apresentaram seqüências cuja luz reproduz com perfeição os ambientes reais. Com isso ganharam a credibilidade no conteúdo, o envolvimento emocional do público e também maior audiência. No capítulo "3.3.2 - As cenas: a análise" são apresentadas imagens de "A Indomada", "Pantanal" e "Ana Raio e Zé Trovão".

No entanto, para a obtenção de resultados convincentes nas imagens apresentadas na televisão, não basta conhecer os elementos da composição pictórica, é preciso conhecer a técnica para dela obter-se os resultados estéticos. É necessário conhecer os processos de formação de imagem desta mídia para saber suas características e limitações de forma a construir a composição de imagem que não seja distorcida pelo processo de transmissão.

É o que será tratado no capítulo seguinte: conhecer a técnica para poder utilizá-la adequadamente e proporcionar composições visuais que busquem no repertório do telespectador a confirmação da realidade.


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índice

Introdução

Dedicatória

Agradecimentos

A influência das artes plásticas

Os elementos da composição artística

A luz nos movimentos artísticos

A Fotografia

O Cinema

A luz na TV hoje

A contribuição do olho humano

A formação da imagem na televisão

A imagem colorida na televisão

A temperatura de cor

Os filtros de correção

O processo de balanceamento de cor

Tipologias da fonte de luz

A comunicação na TV

Em estúdios de telejornalismo

Iluminação de três pontos

Iluminação para dois ou mais apresentadores

Nas cenas de telenovela

O roteiro: o produto

As cenas: a análise

Conclusão

Bibliografia

Videografia

Resumo

Abstract

dúvidas, críticas e sugestões
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